SONHEI QUE GANHÁMOS AO GANA

Não sonhei nada, só não sabia exatamente que começo escolher. Menti. Logo a seguir lesionei-me na língua, bem feito! Um destes dias, provavelmente ontem, enviaram-me uma daquelas imagens que brinca com o facto de, por um (in)feliz acaso, as lesões terem surgido, qual cogumelos, um pouco por todos os membros inferiores dos nossos rapazes lá por terras de Vera Cruz. Ora estava eu a pensar se escrevia ou não mais um pequeno texto, quando se me ocorreu a Cruz da Vera e o Pau-brasil. Tudo junto parece-me uma tareia demasiado grande para estar para aqui com grandes cuidados, inclusive com pontuações e afins. Adiante.

Enchemos o saco abundantemente com os novos donos do pedaço lusitano. Não contentes com essa atitude tão altruísta para com os rapazes do Low, entrámos a matar domingo dentro e, ainda o galo não cantara a meia-noite em terras de Viriato e já os américas estavam a ser bombardeados por Nani, Ronaldo, Meireles e companhia. Curioso. Reparei que alguns jogadores americanos fizeram sinais para o banco de suplentes a pedirem confirmação de que o Meireles não levava qualquer bomba colada ao corpo. Parece que três minutos depois Obama confirmava que eram mesmo só tatuagens. No banco português Rui Patrício sorria maliciosamente, ninguém notara a diferença, o pobre keeper do Sporting está agora algures na Rússia, enquanto Snowden passei alegremente em Campinas. Ainda não fez uma defesa… mas esse é o disfarce perfeito.

Amanhã jogamos com o Gana. Podemos ganhar 5-0? Podemos. Mas é melhor não. Bastou-me o anúncio do Good Bye Troika, que afinal era mais um até já. Não quero passar aos oitavos de final. Não quero que o sonho continue. Quero que o mundial termine depressa para saber onde andam os nossos governantes. Se Passos Coelho tiver uma tendinite ou Paulo Portas um penteado novo, quero saber, ah pois quero. E quando o PM for de férias à Manta Rota, quero ver em que canal vou ficar a saber da bagagem que ele e a sua senhora irão levar. Ah como é bom voltar a cheirar o perfume do nosso dia-a-dia.

Esta noite tive um sonho. Num universo alternativo o mundo era exatamente igual ao nosso, mas com pequenas nuances. Em dia de votação do orçamento de estado, Maria Luis Albuquerque lesiona-se no pulso logo aos cinco minutos, em pleno hemiciclo, Passos Coelho olha para a bancada em busca de soluções, não há suplentes à altura, o PM suspira em silêncio por Relvas, mas Scolari antecipara-se e Neymar tem agora um companheiro de ataque com equivalência a Ronaldo, o Fenómeno. A coligação treme, Fábio Coentrão é hipótese o país pára, Isaltino acende o charuto, com ou sem lesões continua a ser o maior. Provavelmente teremos de pagar o bilhete três ou quatro vezes, sem fatura claro, mas fica o convite, vamos vê-lo jogar? Força Portugal.

POST ABERTO PARA CRISTIANO RONALDO

Caro Capitão,

Pensei em realizar um vídeo, para te fazer chegar esta mensagem, mas ocorreram-me quatro “senões” (que, em plena ressaca germânica, me parece ser o plural correto de senão). O problema começa logo pelo número. Quatro! Mas continuemos. Porque não fiz o vídeo? É fácil, muito fácil. Não sou fotogénico como tu és, uma; sou, de longe, menos habilidoso que Lynch, Allen ou Coppola, duas; falta-me a arte de Williams ou Zimmermann para a banda sonora, três, e quatro, simplesmente não me apeteceu.

Pois é mesmo assim e é mesmo por aqui que vou começar. Não me apeteceu realizar o vídeo, tal como, me parece, não vos apeteceu jogar à bola em Salvador com a mannschaft. Se estou certo? Bem, da minha ausência de vontade, consciente estou, da vossa, bem da vossa, estou simplesmente a deitar-me a adivinhar (tramado utilizar aqui a palavra deitar, não?).

Ainda assim, acredito. Já passou o tempo necessário para que, em mim, eu passe do oito ao oitenta. E volto a acreditar. Somos assim, mas tu sabes, tu também és latino. Foi por isso que choraste em janeiro, quando te disseram aquilo que todos nós já sabíamos, que és o melhor do mundo. E o Leo? Pois ele também é bom. Mas tu saltas mais alto, corres mais depressa e tens mais força. Ah é verdade também faturas mais e pagas os teus impostos (desculpa Messi, não resisti). Se nada melhor te ocorrer acredita que até a nossa Ministra das Finanças te vê como melhor, contribuinte, claro está.

É por isso que quero. Não, não está correto. É por isso que nós queremos que pegues no nome de Portugal, e o eleves lá ao alto, desde o segundo que, em Manaus, entoar a Portuguesa. Lidera a equipa rumo ao sonho que os alemães teimam em nos roubar. Não queremos que sejas Átila, César ou Napoleão, queremos apenas que sejas nosso Capitão, Cristiano Ronaldo. Força Portugal, os Heróis do Mar vão estar hoje todos unidos, em pensamento, o encontro está marcado. Até logo. Às 23 começamos a reescrever a nossa história.

É SÓ FUTEBOL

Paulo Bento demonstrou uma proposição que, infelizmente, se vai enraizando e tornando cada vez mais uma tradição: não nos safamos com os alemães. Relembro as tentativas do Eng. Sócrates em negociar com a Sra Merkle (uma coisa que me apoquenta é não saber se a Ângela é Drª ou Engª) e que geralmente corriam bem, nas palavras do antigo PM e que depois, acabavam, como infelizmente todos sabemos, com uma goleada do ministro das finanças Alemão ao nosso orçamento (familiar, não o de Estado).

Nos primeiros minutos de jogo, Cristiano Ronaldo, de braçadeira no braço, mostrou aos alemães o que a padeira de Aljubarrota mostrara, séculos antes, aos espanhóis… Por esta altura algumas imagens estranhas terão passado pela mente do leitor, mas referíamo-nos à pá, não a uma objeto real, mas neste caso a uma figura de estilo denominada metáfora. Sim, nós portugueses podemos não ser grandes, mas de figuras de estilo está o nosso passado recente bem apetrechado.

“O vento soprou e ela não voltou”, mas um fulano qualquer vestido de branco senta-se na área, ao colo de João Pereira e o senhor “qualquer coisic” aponta a marca de penalty e, num segundo, o rating da nossa seleção desce para ddd. Em Portugal o nosso PM sustém a respiração, no Brasil Paulo Bento levanta os olhos ao céu, e aproveita para beber um pouco de água e afogar a mágoa, antes que a mágoa o afogue a ele. Muller chuva (chuta), não sabemos mas é o principio do vendaval. Também não o sabíamos aquando da chegada da troika.

O jogo contina, por cá continua há já tempo demais. Por lá CR7 e sus muchachos dão conta do cansaço de 60 jogos numa época desgastante, por cá a maior parte de nós teria um ZERO á frente das iniciais se isso fosse passível de ser considerado matéria coletável. Esteja onde estiver, Vítor “Hans” Gaspar terá já sorrido quatro vezes. Não pelos golos germânicos. Mas sim por ter entrado no governo, por de lá ter saído, qual dama ofendida, por ter entrado no FMI e por já não faltar muito para atingir a idade da reforma. Sim porque VG23%IVA (qualquer semelhança com o antigo Ministro das Finanças, não será mera coincidência) conseguiu fazer o mesmo que Ronaldo na Suécia, só que durante mais tempo, “Eu estou aqui”.

Salvador, quente e húmido, os braços de Pepe escorregam e batem na cara do alemão Muller, o menino cai, Merkle levanta-se para tirar mais uma pastilha de cevada, a seu lado Lula prevê que a Alemanha ganhe o jogo… Não. O polvo é que sabe sempre que ganha (Ignorar por favor este parágrafo, inclusivamente a troca do quem ganha pelo que ganha). Pepe lembra-se de Sónia Braga e dá o beijo da Mulher Aranha no Thomas Muller que quase volta a cair, provavelmente pelo hálito do Luso-Brasileiro. Mais um falhanço na organização, um prego faz com que o alemão salte em direção a Pepe “O Sereno”, acontece magia, o árbitovic puxa do amarelo, mas uma ilusão de ótica, devida à elevada temperatura, faz com que todos vejam um vermelho direto.

O jogo segue sem grande história, o adjunto de Paulo Bento pensa em sair da coligação, mas Miguel Relvas avisa o Preparador Físico a tempo de manter a equipa técnica coesa. Em Portugal Cavaco sente-se mal, momentos depois o comentador corrige, senta-se mal no sofá e acaba na alcatifa, onde por acaso está já deitado há quase 90 minutos Rui Patrício. O jogo acaba, Nuno Crato manda alterar os exames nacionais de matemática e inclui uma questão cujo resultado é 40. Pires de Lima faz negócio com uma velhota que faz havaianas manualmente. Merkle levanta-se e bate palmas, Passos Coelho e quase metade do hemiciclo faz o mesmo. A sra está feliz, nós estamos felizes.

E agora? Agora venham os “amaricanos”, não lhes devemos nada, julgo eu, exceto o facto do coach deles ser alemão, mas isso é apenas uma ironia do destino, ou então da Moody’s, que entretanto depois de ver uma foto de Meireles nas redes sociais, baixa o rating português para xxy (à beira de sermos considerados pornográficos). Hoje voltamos à vida real, vamos passar o dia a dizer mal dos alemães e dos árbitros, que conversa diferente temos tido nos últimos 3 anos?

 

 

 

 

ESSA HISTÓRIA

Ler Eça e a geração de oitenta,
depois ouvir os Beatles
numa tarde no metro
e o fmi a jogar à sueca
com as nossas promessas.

A rádio a tocar o café da manhã
e na televisão
uma história em vinte canais…
Vou votar em ti, de certeza,
se estiveres de acordo comigo.

Essa história é muita dramática,
parece-me uma novela da tarde
se estiveres com vontade de chorar,
podes voltar, já nos rimos tudo.

Não conta o meu traço,
como conta a palavra
de um estranho conhecido.
Charles Darwin enganou-se,
a evolução, desaconselha-se.

IRONIAS

Cidades que se levantam
tocam o céu tão rápido
como as nossas mãos.
Numa rua com uma casa de sonho,
um cofre com um segredo,
uma memória mal explicada
repetida como uma rima.
Casas como castelos
banhados em espuma,
venezas a fazer de tempo
e uma quase babilónia, um murmurio
uma despedida como um salto
em frente, alturas medidas
em mãos apertadas
um lapso chamado direitos.
Ironia ao fim da tarde
sem preconceitos!

POEMA DE UM 23 DE MAIO

Muito fácil se torna correr com o tempo

fazer duas coisas diferentes

quando se pode aproveitar um momento

sem repetições ou passagens

que se libertam da nossa memória!

Inventamos demasiadas palavras

para esconder as intenções,

um apanhado de quase nada

arremessado ao vento

como se fosse uma bandeira branca.

As mãos, podem segurar espadas,

noutro dia tentar separar as moléculas

de uma lágrima, equacionar explicações

sem grandes certezas nem resultados.

Os mesmos lábios que te disseram

todo o tamanho que o corpo tomou

pensaram a liberdade que não foi nunca

feita de ausência… Só de traquinices

e filmes de uma série

que não se vê uma segunda vez,

com o sabor que há em recordar!

Rasga-se o embrulho que trago escondido,

não por ser vergonha aquilo que sinto,

mas porque não posso cristalizar

rimas e sorrisos, com a facilidade

com que aprendi a escrever o teu nome.

NOITE

Quando a noite já aparece ao fim da tarde,
toda a gente olha para ti
com lentes cor de café.
Ninguém sabe a hora de parar,
por isso às vezes
rasgamos as contas e paramos para cantar!

Quando a noite já aparece ao fim da tarde,
lembraste que o dia
foi demasiado cumprido e comprido…
Passaste demasiados segundos
a ignorar os desejos e as tonteiras,
a música era tão simples!

Sem mais do que lágrimas ao fim da tarde
um enorme momento, entupido em filas,
cicatrizes que ficaram por sarar
uma espera sem tempo definido.
Amanhã talvez tudo se repita,
quando a noite aparecer,
sem já passar pela tarde.
Um conforto sem palavras, uma suave mentira.

SÓ, PARA DIZER

Só, não significa abandonado!

Só, significa que por vezes,

não necessitamos de olhar

com as lentes do dia-a-dia.

Só, significa só mais um pouco

porque que a seguir

contaremos uma mão cheia

e depois mais outra.

Só é apenas uma palavra.

Como um malmequer,

só pode ser um modo,

uma forma de dizer

estou aqui, estamos aqui.

Sempre estivemos!

PARA TI MÃE

Corri ao vão da escada
um pedaço de casa,
deixei o meu soldado
lá fora, abandonado!

Aqui, tão perto de ti
faz mais sentido
o meu mundo
e dou-te um abraço profundo.

Bebi da inocência,
só mais um golo
em cadência…
Meço-me agora ao teu lado
e lembro os lanches
no Chiado!

Recordar, sabe bem,
no vão da escada ou além.
O que eu tenho para ti,
quase nada, cabe aqui
num abraço apertado. Mãe!

ANTES DE ACORDAR

Ultimamente não encontro os sonhos
que guardei no bolso.
Parecem quase os mesmos
que deixei para trás.

Quando decidi seguir em frente?
Deixar de ouvir os mais velhos
pareceu-me tão certo
até eu mesmo ser mais velho.

E agora se ninguém me ouvir?
Sei como foi comigo,
tudo o que está em mim
não é para mim

Há algo que te quero oferecer.
Se eu te pudesse contar
a história toda,
saberias que não sou mais que um figurante.

No meu próprio romance
uma simples folha, um mero índice
sem lágrimas, sem sorrisos.
Um esforço de existência, o meu melhor?

Parece-me tão errado escrever…
Talvez o mais certo, fosse fingir dormir
e esquecer que estiveram aqui
tão perto das minhas mãos.