INTENSA IDADE

As idades são como espinhos
pequenos ciclos que nos mostram
diferentes visões de um mesmo caminho!
Como se apenas mudassem as janelas
por onde espreitamos,
mas fossem os mesmos momentos
os visitados, bem como os olhares
a visitá-los.
Quando as mãos se reencontraram
o tempo, ficara gravado
por entre os dedos,
sonhos que se não fizeram,
sequer se ponderaram
a pulsar de intensidade,
como se chorar, assim, sem vergonhas
oferecesse amanhã
um outra vez para fazer tudo bem,
ou talvez aprender mais um pouco.

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MELANCOLIAS

A melancolia é uma falácia do tempo,
um entendimento de mim para com os outros
uma quase porção de nada que nos subtrai ao presente
e nos atira, vertiginosamente, em direção ao ego.

A melancolia, assim, entende-se como um quase de mim,
um descobrir que há algo, um desvendar
que julgo, jamais conseguiremos compreender,
talvez porque no cerne, entender seria mais um desistir.

A melancolia relembra-me de um quase espaço
que por não o poder continuar a ser
existe agora numa outra dimensão… Só minha!
Após os meus pensamentos, a misantropia do eu.

TIMIDEZ

Somos donos de um privilégio,
uma alquimia incrível
e teimamos em asfixiar o pensamento.

Agora, tenho de ir frente
e nem sei por onde vim!
Como vou saber
onde descansar?
Se conheceres outra dimensão
e se lhe dão nomes que não entendo,
como vou conseguir
juntar as minhas peças todas
e construir-me de uma só vez.

Sabes, é tao confortável
sentir-me em silencio,
atirar as minhas mãos,
e desafiar o vazio…

Por vezes, fica mais fácil,
desprendo-me do sentido
e aceito-me por um momento.
O resguardo da mente
aquece-me no inverno,
quando a timidez desvanecer
chegarei à próxima estação.

QUE É ISSO DO SONHO

As mãos libertaram-se do momento
e fizeram o passeio do tempo.
Entre o nada e o agora, poucas
coisas são tão belas como a liberdade.
Um forte abraço com sabor a tudo
percorre o sentido das letras
que se juntaram, o imediato
parece diferente, visto de perto!
Sonhámos com montanhas,
porque lá em cima tudo parece possível.
Pois quando alcançarmos a planície
seremos apenas uma memória.
As mãos baixam, o peso
dos dias, aniquila a imagem
do sonho foi tanto
e depois apenas tudo aquilo que é.

OUTONO É HOJE

Hoje é Outono! Quer dizer,
já era Outono há algum tempo,
mas hoje cheira mesmo a Outono.
Hoje vi as folhas.
As mesmas que vi verdes,
amareleceram, fraquejaram e caíram.
Quando dei por mim
chovia a chuva miúda e
ninguém viu que eu chorava
O mundo fez-se novidade,
não se olha para trás
quando pisamos meras folhas
sem importância.
Os pés das pessoas serpenteiam
passeios e caminhos
e o mundo continua a falar
em bicos de pés!

SABOR DA AUSÊNCIA

Notei na mesma ilusão, a impaciência
de transformar o quase nada
em algo um pouco diferente!
Um plano inferior,
para juntar os pontos
e abraçar horizontes.

Olhei, depois, com atenção
eram os cães, eu vi-os partirem.
Como que encantados
esquecendo os pontos cardeais
e o sustento da vontade.
Os sons da ironia, ladrados,
uma matilha de incoerências.

Dissipa-se o palavra mal desenhada,
o nevoeiro das ideias
eram apenas ramos modestos.
Uma laranjeira sem flor
ocultou a verdade,
dois segundos depois,
um ardor invulgar
com sabor a ausência.
Antes a companhia
era apenas a fingir.

IDADES DO IMPROVÁVEL

Recordar um sonho, liberta o peso
que teimamos em carregar,
fingindo que a vida faz sentido
sem que nos libertemos
das amarras dos impossíveis.
Só assim podemos aspirar ao sonho
enquanto possibilidade.
Só assim faz sentido sonhar.
Porque o sonho
faz de nós corredores do improvável,
descobridores das palavras esquecidas.
Sonhar faz com que a infância
fique tão perto da velhice,
que jamais envelheceremos
ao ponto de esquecer
a criança que somos!