A MÁQUINA DO TEMPO

A pequena pedra que guardara com o carinho de que podem gozar as pequenas lembranças quando a própria idade promete muito mais do que recordações, era a única coisa em que Beatriz conseguia concentrar-se quando os sonhos maus teimavam em visitá-la, já sem hora nem aviso. Durante muito tempo procurar ripostar as trevas que a invadiam. Hoje já só pedia que a envolvessem de uma única vez, para sempre.

Quando se deixava vencer pelo cansaço, perdoava as suas memórias e deixava que a revisitassem. Nas suas noites que se tinham tornado solitárias ainda podia sentir o frenesim dos dias alegres, de outro tempo mais feliz, quando a diferença entre o bem e o mal era tão mais fácil de distinguir. Fora esse o sonho a que se propusera que fosse a sua vida, viver esse tempo para lá da idade que foi deixando de ser a da inocência.

Eram duas da tarde, lá fora o alvoroço da cidade, as buzinas e os motores, as vozes como que consumidas no misto de barulhos já incompreensíveis se separados, vieram acordá-la dos seus fantasmas para o tempo que era o seu. Era sempre assim. Os sonhos vinham cada vez menos e apenas a escuridão mostrava tenção de ficar com ela, de mão dada com as suas ansiedades e receios.

Quando se tentou levantar da cama sentiu uma tontura que a fez desistir temporariamente de sua empreitada. Deixou que a cabeça voltasse a tocar a almofada como que para ganhar balanço e fez nova tentativa. Desta vez e com mais alguma da força que pensava já não ter em abundância conseguiu pisar o chão frio do quarto com os seus pés e lembrou-se que ali naquela quarto não tinha o seu tapete macio e quentinho. Olhou para os cortinados que ficavam ao lado da sua cama e viu no branco deles o vazio que se tornara a sua vida. Sentiu-se cansada e a tristeza voltou a invadi-la e as cores na sua cabeça confundiram-se numa apenas e o branco dos cortinados acinzentou e a escuridão voltou a tomar conta o seu coração.

Ouviu passos no corredor e sentiu-se arrancada às voltas que do seu pequeno mundo, olhou para a mesa-de-cabeceira em busca do seu relógio despertador, mas não soube encontrar as horas que queria possuir agora. Nunca mais seria aquela hora, aquela que a fazia ser feliz, e agora que tomava conta desse facto, dessa realidade tão cheia de presente, os seus olhos pareciam querer roubar-lhe a lucidez das imagens, quando se deixam invadir pelo sal das lágrimas. Sonhar era tão fácil, pensou, que custa crer que depois seja igualmente fácil aceitar dificuldade que é voltar a consegui-lo.

Tinha de conseguir escapar daquela escuridão toda que a inundava, mãos, braços, lábios, na boca o sabor a um medo que consome, como lume que arde com alegria pirómana. Os seus dedos brancos, fizeram-lhe lembrar por momentos os cortinados brancos, a mesma cor, o mesmo fim, escondeu a sua cara por detrás deles e ouviu a maçaneta da porta rodar. A luz invadiu a escuridão com uma violência só possível de alcançar quando se enche o vazio com o cheio ou quando se perde tudo num segundo. Beatriz sabia exactamente o que perdera, olhou para a mulher de branco que se aproximou dela e não teve forças para se levantar, tão pouco para se deitar e deixou-se ficar, sentada, os pés a meia viagem em direcção ao chão e a cabeça perdida em delírios.

O suor que lhe pingava da testa começou a refrescar as faces rosadas e os olhos, por momentos abertos, invadiram-se de um ardume que a fez acordar daquele outro sonho mau. Esticou a mão e sentiu outra mão, os olhos ardiam demasiado para conseguir abri-los, apertou a mão e o buraco por onde tomava que o seu corpo se escapasse parecia ter feito uma pausa, o movimento pareceu-lhe querer deixar de existir, como se a velocidade pudesse ter um querer. Abriu os olhos, a jovem enfermeira respondeu-lhe com um sorriso. As mãos unidas como se houvesse naquele ritual um quê de habitual. Mais um instante. As palavras da enfermeira soaram como um trovão nos seus ouvidos, tentou esconder-se e voltou a perder o controlo das suas forças, a mão da enfermeira ainda na sua e a saudade a querer apertar-lhe o coração com a mesma força.

Como quem conta uma coisa e depois lhe acrescenta outra, sem que por mal seja, apenas por causa de contar coisas com interesse, Beatriz voltou a afastar-se daquele presente, pegou na máquina do tempo, escondida algures no seu frágil ser e enviou-se, com as forças que ainda iam sendo suas para outro lugar, muitos anos antes. Fechou os olhos e deu um passo em frente, sentiu o trepidar da carruagem das memórias, num movimento tão diferente como o podem ser os passos de quem quer voltar a cometer os mesmos erros. A máquina do tempo parou, com aquele som tão característico das máquinas do tempo, seja ele qual for, agora parecia-lhe o som da máquina de lavar que o marido lhe oferecera num qualquer aniversário. E deu um passo… E a inocência que ainda guardava em si como um tesouro, que se esconde e depois se perde o paradeiro, foi dar-lhe aquela empurrão que se necessita sentir, quando se está tão a medo de voltar a ser feliz.

Quem a visse, diria apenas que tinha um sorriso calmo, mas jamais poderia saber onde estava agora Beatriz. Leve como naquele dia em que os pés de menina a haviam levado a tão lesta como a vontade de saber o fim das suas forças, só para descobrir que era tão nova que o fim era somente uma palavra com pouco ou nenhum sentido. Quem a visse, talvez deixasse um quê de nostalgia invadir o quarto e ir pousar-se como um raio de sol de fim de tarde, na parede, junto às fotos das recordações e dos nomes, quase todos eles esquecidos ou a esquecerem de saber quantos sonhos cabiam naquele quarto. Quem a visse talvez pensasse em coisas tristes, mas se soubessem haveriam de também saber como sorrir assim, sem esperar mais do que o sabor daquele mesmo momento.

A máquina do tempo estava de novo para partir, Beatriz deixou que os seus olhos abraçassem mais um presente e soube nos lábios aquele sentir que tem a saudade. Se pudesse contar aos outros como se ligava aquela máquina talvez fosse a tempo de lhes dizer tantas coisas… mas lembrou-se que já ninguém tinha muito tempo para lhe dar e susteve o ímpeto num pequeno tremer de lábio. Pareceu-lhe ouvir a voz da enfermeira, mas dentro da máquina já não soava a trovoada, talvez a aguaceiro e deixou que o motor voltasse a parecer aquela máquina de lavar roupa e deixou-se seguir, caiu-lhe um lenço branco no regaço e lembrou-lhe aquela tarde para correr sem fim.

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O JORNAL

“As letras são as mesmas, o sentido é que pode ser outro”

Olhou com orgulho para as folhas de papel que agrupara cuidadosamente e agrafara ainda com mais enlevo, para poder segurar agora naquelas pequenas mãos alvas quase como o próprio papel que disposto assim fazia como conjunto o jornal que sonhara criar. Sentiu um sabor de vitória, que ao invés de poder denominar muito simplesmente pela palavra que a definia, talvez por desconhecimento, teimava em apenas deixar correr os segundos e entregar-se sem mas, ao sabor do próprio momento.

Talvez o nosso maior problema seja esta grande vontade, diria mania, de tentar arranjar nomes que definam cada um dos momentos em que sentimos algo, seja que nos faça rir, sorrir, recear, ansiar ou pura e simplesmente chorar., mas que efectivamente se distinga dos outros momentos, em que tantas vezes parecemos adormecidos, à espera, apenas à espera.

No verão passado, sabia-o agora, era demasiado nova para fazer algo tão perfeito como as páginas que segurava orgulhosa na sua mão esquerda. Sorria perante a inocência dos 10 anos, entretanto parecidos tão distantes pelos doze meses em que lhe parecia, tanto amadurecera. Aquele segundo número do seu periódico, contendo a periodicidade que se podia exigir a quem levava o jornalismo demasiado a sério para brincar com ele em tempo de aulas, levantou um sorriso nos seus lábios de criança, apenas interrompido pela preocupação, outro sentir que na altura apenas podia conhecer sentindo.

Recordar-se ia muito mais tarde, que jamais a ansiedade a invadira naqueles anos, e embora não soubesse a razão para tal fenómeno, nunca qualquer preocupação a apoquentara muito antes do próprio problema surgir para ser resolvido. Mas enfim, naquelas férias, uma grande preocupação começava fazer-se sentir derivada do problema que acarretava a própria tarefa que se propusera levar a bom termo. Agosto escaldava, era o tempo em que as tardes de Verão duravam exactamente o tempo que uma tarde de Verão supostamente encontra na infância.

Quase que o pai a convencera a fazer a sua opção pelo jornal de parede, mas não, ela sabia que não havia nada como sentir o peso de cada exemplar, e a alegria de o manusear ao belo prazer de beber cada uma das ideias feitas em palavras, que se pretendem soltar do suporte. Agora, naquele dia, ela sabia que as próximas semanas seriam passadas a copiar o original que tão brilhantemente construíra com a velha HCesar que a mão resgatara a um velho que percorria as ruas da aldeia, com uma bicicleta para amolar as facas com que a mãe, as mães de todos, faziam o meu, os nossos, almoços e jantares.

A máquina de escrever, as colagens dos recortes que ia fazendo, e a sua própria imaginação, faziam o resto e a notícia ganhava forma. Anos mais tarde, ao permitir-se um momento de nostalgia, haveria de comparar as notícias que era paga para escrever com o preço que lhe custavam as noticias que criava para o seu próprio jornal.

Haveria de sentir saudades de alguma coisa que a impedia de dizer algo que não tivesse positivamente certeza, como naquele dia em que desistira de publicar a notícia da fuga da galinha da vizinha, por desconfiar da veracidade da mesma, quando a vizinha lhe ofereceu um prato de canja acabadinha de fazer.

Adiante, nesses dias havia um sentir que não tinha nome, mas que se insinuava a cada linha que escrevia. Quando em adulta voltasse a escrever, aprenderia, muito à sua custa, que existem regras e coisas como a ética, mas nem isso a voltaria a fazer sentir aquele sabor de conquista e vaidade que só a jornalista que foi naquelas tardes lhe havia proporcionado. E embora fosse elogiada a cada passo em frente dado na sua carreira, haveria de sentir sempre uma falta, um vazio que quando estivesse quase a preencher, haveria de se reposicionar e fazer de novo um vazio e, se calhar, nunca mais sentiria aquelas tardes varrerem-lhe o corpo com a força, que lembrava, quase com mais dificuldade que saudade.

Olhou com orgulho para as folhas de papel que segurava, já feitas jornal, o seu jornal, e no meio da alegria, foi descobrir exactamente na primeira página, a cara que pretendia para o seu jornal, perfeita, um erro ortográfico que a arrastou para uma sensação de desânimo, quase imediato. Inspirou uma mão cheia de ar fresco, o possível de conseguir de bom grado, naquelas tardes em que Agosto fazia jus ao nome, susteve com alguma facilidade e fechou os olhos como que em busca de uma solução que a não obrigasse a rasgar o seu trabalho em tiras e pedaços, para depois começar tudo de novo. Soltou bem devagar cada pedaço de ar tomado momentos antes, como se a cada pedaço de tempo libertasse também pouco a pouco a sensação que a viera apoquentar.

Deixou, depois, que os seus lábios desenhassem um sorriso. Aquele era exactamente o tempo em que começar tudo de novo custava absolutamente nada, e dava uma sensação que mais tarde teria como adquirido que já alguém definira por prazer. Naquela tarde, ela não o soube exprimir mas sentiu-o, aquilo que naquele outro dia em que a melancolia a fez viajar no tempo haveria de chamar prazer, um prazer do caraças acrescentaria a menina crescida ao lembrar apenas a menina.

UM PINHEIRINHO CHAMADO CARINHO

“Como são estranhos aqueles que fazem a guerra, ou como lhes parecem estranhos aqueles que amam a paz”

Carinho era um pinheiro. Para começar nada de muito extraordinário, a não ser que o papel onde a sua história começava por ser escrita fosse mais ou menos criado a partir da sua pouca graça. Mas não, pelo menos neste caso Carinho era mais ou menos daqueles pinheiros que povoam a nossa imaginação nas noites de Natal. Verde, muito verde, pequeno, mas grande o suficiente para ser apreciado e se eu dissesse frágil estaria provavelmente a repetir uma imagem que de certo todos já construímos a esta altura. Ah e claro, para completar uma ideia um quanto ou tanto a roçar o idílico, bem-parecido, bonito, giro, engraçado…

Carinho era, deve-se frisar, sublinhar e talvez reforçar para que não haja qualquer confusão, um pinheiro que apesar de ser um pinheiro, não na perspectiva filosófica mas apenas no carácter físico da coisa, desconhecia por completo as maleitas que qualquer pinheiro que se preze, aqui ou ali, aprende a temer. Estou a referir-me sem grandes rodeios ao fogo, à serra dos seres humanos e até mesmo aos rivais eucaliptos, ao tempo, aquele em que Carinho era o tal pinheiro, a florestar por aí em ascendente sobre os velhos e cansados pinhais.

Carinho era então o tal pinheiro. Aquele de que acompanhamos a história, e para começar, vivia feliz e despreocupado. Mas porque as crianças também têm o seu direito às ânsias dos pleonasmos mascarados de depressão ou hiperactividade, se Carinho por um acaso qualquer se descobrisse a sentir invadido por uma também ela qualquer pontinha de tristeza ou solidão, sabia que lhe bastava procurar lá em cima, bem no alto e acalmar o seu desassossego. Olhava a mãe, com aqueles olhos que na nossa história os pinheiros possuem, e ela devolvia toda aquela admiração com um toque de ternura e orgulho, quando o toque é uma mera figura de estilo e não carece de qualquer explicação, porque o amar se calhar não é assim tão fácil de escrever, ou então aos pinheiros é proibido o amor.

Estes eram os dias de Carinho, uma infância no paraíso, uma infância deixada viver ao ritmo de quem é criança, e os sonhos, os seus, e uma vontade, a sua, que deixava antever tudo aquilo que Carinho sabia, haveria de ser seu.

Não muito, foi o tempo que passou, com aquela velocidade estranha que anda de braço dado à felicidade. E um dia, igual a tantos outros dias que conheceu o nosso pinheirinho, assim mais ou menos quando a luz e a ausência dela, como dois corpos em sintonia faziam o amanhecer; naquele momento em os primeiros raios de sol se descobrem a beijar a terra fria, para o despertar daquele sono que só o relento parece saber oferecer, veio dizer que existia uma verdade de que só os pinheiros anciãos se recordavam não com pouca dificuldade.

Os homens corpulentos e a barba por fazer, um já pouco leve odor a álcool que lhes nascia da boca e a mesma enfeitada entretanto, com uma ponta de cigarro de uma marca um tanto ou quanto rasca e os machados, amantes e acompanhantes, fiéis seguidores daquelas mãos marcadas e apimentadas pelas palavras adocicadas por uma  rudeza, que entretanto desfazia qualquer dúvida que pudesse ainda andar por aquele pinhal. E o velho Ranzinga, o pinheiro mestre, haveria de avisar que aqueles eram os N’hadores e os seus terríveis dentes comedores de madeira, que gerações de pinhas e pinhões haviam passado sem conhecer.

A boa madeira que procuravam estes tais lenhadores, feitos em castigadores quase que míticos, ali a encontraram entre os protegidos do velho pinheiro mestre. E Carinho assistiu a uma autêntica encenação que facilmente poderia ser confundida com uma qualquer limpeza étnica. E aquela serra que não poupou sequer a sua mãe, abatida depois de seguida, por meia dúzia de golpes de machado. Carinho, tal como os seus companheiros, sentiu uma dor terrível embora de origem diferente, por ser lá bem dentro onde a seiva corria e beijava as suas entranhas. Os outros amigos, os já adultos, esses viam a vida a fugir-lhes em pouco mais que uma manhã, entre o rangido da madeira e o odor a gasolina que alimentava aqueles dentes famintos.

O nosso pinheirinho compreendia pela primeira vez, o verdadeiro significado do ódio e da raiva, e embora não soubesse evidentemente o significado semântico de qualquer das duas palavras, quis vingar-se. Tal era, no entanto impossível. E para mais, aquele que se julgava, ainda no dia anterior, bonito, de tronco bem feito e de seiva fresca e refrescante, era poupado ao terrível abate, por ser muito novo e delgado, segundo ouvira da boca de um dos N’hadores.

Sozinho. Agora sentia-se verdadeiramente só. E nem sequer adiantava olhar para cima, pois nem o orgulho, nem a ternura que bebera de sua mãe se encontrariam à distância de um levantar de cabeça. Restavam-lhe as outras crianças, que como ele, haviam sido poupadas e abandonadas. Teria de os convencer, de os liderar numa cruzada contra aqueles que o velho pinheiro mestre chamara de N’hadores. Para ele, seriam sempre assassinos… E um dia aquela dor haveria de ser compreendida e compensada.

Os anos passaram, e o pequeno Carinho tornou-se um grande e belo pinheiro. Aliás a paisagem em volta, era dele mesmo um verdadeiro espelho. Um pinhal soberbo que não estaria por certo, não poderia estar, muito tempo incógnito; ou não fosse a beleza o mais indiscreto chamariz às coisas que a inveja trás consigo. Todos o sabiam muito bem. Estranhavam até que, ao adormecer à noite, não fossem acordar na manhã seguinte transformados em duas ou três tábuas, capazes de adornar uma porta ou uma janela de uma casa de rés-do-chão ou quem sabe fazer parte daquela mesa que se comprou para a sala de jantar.

Tinham medo. Mas não seria assim tão pouco original, o destino que lhes seria traçado. E naquela tarde em o tempo estava excelente e convidativo a longos passeios em locais frescos e arejados. Naquela tarde em que a temperatura aumentava; sim estava uma tarde bela e calma, muito calma e igualmente quente. O quente que se transformou em muito calor, e um ar que se pulverizou com um odor a chamuscado.

Colocado em alerta pelos sentidos que apurara em anos de treino e autocontrole, Carinho, o mais frio e calculista de todos, ou então simplesmente o mais atento, ficou pensativo, pasmado e finalmente decidiu-se pelo pânico. Ouvia os gritos dos companheiros e via um ser de cor alaranjada como que um feiticeiro que se desdobrava indefinidamente e com uma imensa sede de madeira. Sabia que esta cor que queimava só de olhar, os consumia na igual medida, com a mesma fúria e velocidade que os S’assinos haviam feito tantos anos antes.

Alguém disse que aquilo era o fogo e Carinho sentiu a acção daquele no seu íntimo mais profundo. O seu dentro, o que não é o metafísico mas pura e simplesmente aquele onde dói. Não gritou, mas acrescentou algo aos mais terríveis sentimentos que lhe trajavam a seiva. Com a chegada das sirenes, a água apresentou-se e completou o seu serviço de uma forma que quase cheirava a esperança. Em breve o incêndio estava extinto e o pinhal reduzido a uma recordação amarelada, ornamentada por pequenos conjuntos de cinzas, alinhadas quase que geometricamente.

De Carinho nem sinal; teria alimentado as devastadoras chamas, ou provavelmente sido comprado por uma ninharia, descansando agora numa qualquer serração? Não, naquela confusão, um meio pinheiro passara despercebido. Carinho, novamente sozinho, rei num monte de cinzas que haviam sido os seus amigos e escravo das suas próprias raízes, como quem não pode negar o seu berço. Fora belo, ou algo próximo ao seu conceito de beleza mas agora era apenas uma metade que transbordava, novamente de ódio, sem sequer saber, talvez sem saber na verdade, por quem o sentia de facto.

Sabia que queria fazer alguma coisa. Talvez impedir os sucessivos abates florestais e os incêndios criminosos, ou por descuido. Queri também gritar e chamar a atenção dos seres humanos, avisá-los de que afinal também eles estavam a ser abatidos e queimados, pois sem florestas o oxigénio seria apenas uma beata mal apagada, num pinhal que alguém se esquecera de cuidar.

Estava distraído, imerso em si, filosofando aquela filosofia que vem com a dor. Nem deu pela presença de um novo grupo de homens. Estes, depois de limparem e prepararem todo o terreno martirizado, começavam por plantar aquele lingrinhas esverdeado e convencido. Há quem lhe chame os eucaliptos. E soube de que cor era o fim. Carinho não poderia escapar e foi cortado para dar lugar a uma nova raça, como se os homens pudessem brincar à criação da própria natureza.

Durante o corte, sentiu os dentes da serra que maltratavam o seu tronco, mas inesperadamente sentiu também o ódio, transfigurado à beira do fim em esperança, sincera e libertadora. No segundo seguinte Carinho seria apenas uma saudade. E se alguém da sua espécie tivesse sobrevivido o suficiente para o sentir, seria uma inspiração para os que ficavam. Em poucos dias o antigo pinhal dava lugar a um eucaliptal e no lugar de Carinho, vivia vistoso um forte eucalipto.

Mas como Carinho e todos nós, fomos um dia aquela criança sonhadora, e como nos sonhos podemos voltar àquele momento especial até encontrar aquele segundo de felicidade; algum tempo depois, esse forte eucalipto, que começara por ser enfezado e lingrinhas, estava, coisa do destino, murcho e seco e do verde apenas um debotado a conseguir uma nova cor, quase um amarelo-torrado. E precisamente naquele segundo em que nos parece tão fácil ser feliz, antes ainda do acordar e do perceber que foi um sonho, a certeza que no seu lugar nascera uma papoila de um vermelho muito vivo, que alguém ofereceu a outro alguém, com muito carinho.

O DEDO NO GATILHO

“Egoísmo, ansiedade e outras maleitas a carecer de antidepressivos”

Octávio Libertino estava apenas a um passo de concretizar o objectivo que traçara para si próprio, no momento em que descobrira que toda a sua existência não passara de uma encenação. Talvez estivesse a ser demasiado dramático, provavelmente estaria a sê-lo desde o primeiro momento, mas caramba, agora que ultrapassara, ele também, os limites que a mesma existência lhe impusera, por decoro, educação ou tradição, estava, sem dúvida, na hora de tomar a grande decisão.

Sem grande pressa, Octávio Libertino manteve a mão esquerda no revólver que encostara dois minutos antes à cabeça de Dolores Mil Homens, e procurou no bolso esquerdo da sua camisa, o maço de tabaco que guardara no princípio da manhã. Nunca fumara na vida, mas agora aprendera a tentar gostar de cada um daqueles cigarros light, claro está, que fumava com sôfrego como se por milagre, o fumo lhe trouxesse a paz que não conseguia encontrar.

Puxou a primeira baforada e voltou a olhar para Dolores Mil Homens, esta tremia e tentava alinhavar palavras, como se isso tivesse o poder de travar o indicador que Octávio Libertino colocara de guarda à nuca da pobre mulher. Travou pela primeira vez, engasgou-se e tossiu violentamente, era bem mais fácil fingir que fumava regularmente do que tentar fazê-lo, confundia-o como raio poderia alguém tirar prazer de uma coisa tão mal saborosa, voltou a tossir mas persistiu e travou a segunda vez.

As primeiras lágrimas sulcaram a face de Dolores Mil Homens, mas a mão esquerda, aquela que segurava a arma mostrou que há horas em que se não pode vacilar e tornou mais forte o contacto do cano com a cabeça que tremia, como se uma febre orvalhada por suores frios viesse de repente tomar de assalto aquele corpo. Octávio Libertino sentiu que Dolores Mil Homens desfalecia e, talvez por isso, quis tornar o momento uma soma de todas as frustrações que lhe invadiam o intimo e puxou o gatilho.

Ao som em falso dado ao vazio que deles se apoderara, respondeu Dolores Mil Homens com grito de terror que mais não fez do que interagir com o seu sistema urinário. Octávio Libertino resmungou por causa do verniz do seus sapatos ao mesmo tempo que atirava o revólver para trás das costas e forçou com a mão direita a cara de Dolores Mil Homens, para que olhos nos olhos, as palavras surgissem em catadupa e pudessem falar do que entre eles se passara.

Sempre que os olhos de Dolores Mil Homens ficavam à distância de um beijo, Octávio Libertino sentia a cabeça envolta numa névoa da qual não conseguia escapar, as pernas traiam o seu momento e o próximo segundo encontrava-o invariavelmente estendido no chão e o vazio tomava o seu pulso.

O trémulo da mão vagueia em busca da garrafa que ainda pensa encontrar ali, à distância que pensara encontrar Dolores Mil Homens. Um movimento mais brusco provoca num segundo o quebrar do recipiente e um corte na sua mão esquerda, adrenalina suficiente para perceber que não há nenhuma Dolores Mil Homens, apenas Octávio Libertino e o seu mundinho hipócrita.

Entre a confusão que grassa em todos os seus sentidos, as vozes invadem Octávio Libertino mais uma vez, pedem mais uma garrafa não sei do quê e perguntam como é possível que a vitima tenha caído da maca, e depois mais vazio. A mão não está cortada, apenas o corte que sente é aquele que ninguém conseguirá sarar.
Mais um momento de si, vozes e luzes, memórias… Dolores Mil Homens e Octávio Libertino felizes, e a ultima parte que lhe parece tão irreal. O sabor a álcool que ainda ferve entre os seus lábios, ou o odor que não consegue arrancar das mãos que teimam em não se fazer mandadas para tudo aquilo que ele queria fazer. Pede um cigarro, mas a voz foge e ele sente novamente aquele ímpeto de ir mais além que no momento anterior, abre os olhos enfrenta o momento das luzes e vozes que se confundem e vê Dolores Mil Homens a um passo de si.

Não consegue prosseguir o seu papel e rompe em farpas de um desgosto que não pode apagar. Dolores Mil Homens já não pode ouvir as suas desculpas, não pode sentir o seu toque, não pode sentir a sua culpa, não pode sequer sentir o salgado que cai gota a gota sobre os seus lábios. O pano cai.

Na mão esquerda de Octávio Libertino estivera apenas minutos antes o gatilho com que abastecera de combustível a velocidade que queria atingir. Talvez ainda pudesse recordar o olhar assustado de Dolores Mil Homens e as palavras dela, que o seu pensamento não quisera descodificar, ou talvez fosse apenas uma forma que o seu remorso tinha agora para falar com ele.

Minutos antes povoara o seu pensamento com a vantagem e desvantagem de optar ou não por um combustível que fosse mais light para o seu bolso, e procurou-se quando ao digitar o ok da máquina multibanco do posto, ouviu em tom de conversa alheia suposições acerca de aumentos de preços já aumentados.

A encenação terminara. Dolores Mil Homens já ali não estaria, quando os lábio de alguém que talvez nem sequer conhecesse, voltassem a chamar a sua atenção de forma mais célere que o hálito fresco que Dolores Mil Homens lhe costumava oferecer, ainda que fosse para contrariar as coisas que em si mais guardava como certezas.

No próximo acto, só a involuntariedade do momento e a certeza de tudo aquilo, a que de uma forma quase insana, se pudesse agarrar como se cada pedaço de presente fosse realmente seu. Como um dia, quase tinha a certeza agora, pudera chamar de seu o amor que sentira por Dolores Mil Homens.

ILUSÕES

“Cheira a infância, mas só o saberemos quando for recordação”

O som dos passos a subir as escadas fez presente aos seus ouvidos aquilo que o resto do seu ser queria poder ignorar. Como se cinco minutos possuíssem um valor monetário negociável o suficiente para valer a pena regatear o preço, e por sorte granjear o seu peso em pura preguiça.

Fingia sempre que se encontrava abandonado ao mais profundo dos sonos, descansando e abraçando a cor de cada um dos sonhos que lhe fosse permitido visitar. Orgulhava-se de uma maneira muito própria, de conseguir manter a ilusão aos olhos dos outros, tal como mais tarde viria a lamentar, em igual medida, a falta de talento para repetir as façanhas sonolentas de uma juventude com acontecimentos que parecia poder controlar.

Na idade de todas as fantasias, sabia que uma respiração suave e uma carinha serena lhe arrancariam ao relógio, no mínimo mais dois ou três minutos, parecendo isso que pudesse naquele espaço de tempo sem tempo, varrer a preguiça que lhe ia no corpo. E dava-se ao seu pequeno teatro.

Quando dentro do timing planeado, sentiu a mão pesada do avô, no braço que escondera estrategicamente do outro lado da cama, caído, como que em esforço tentando tocar o chão, fez mais uma encenação, mordiscou meia dúzia de vocábulos e virou-se para o outro lado. Como que aquela voz insistente possuísse o poder de lhe devolver a energia que julgava, também ela adormecida, murmurou qualquer coisa imperceptível, como se quisesse mostrar uma cara chateada, e abriu os olhitos. Aguentava por um segundo o sorriso que se queria soltar, e depois dava um salto para o chão e corria para o duche.

Ao chegar à escola, duas horas mais tarde, confirmou sem grande surpresa o encontrar de cem escudos no bolso das calças. Quase que podia acreditar ter participado de um truque de ilusionismo do avô, e perguntou-se como conseguia ele repetir tantas vezes o mesmo gesto sem que a sua audiência desse por isso e, por segundos, arrepiou-se. Mais tarde, quando aquela tarde fosse muito antes do dia em que voltasse a pensar sequer no tempo que o tempo tem, haveria de dar mais valor ao tempo que passou com o avô e com a avó.

Entrou na sala, pousou a mochila e preparou o seu caderno numa página por estrear. Olhou para o lado, piscou o olho ao melhor amigo e fez-lhe sinal para que olhasse para a fita que a professora trazia hoje na cabeça… Que foleiro. Naquele momento de riso contido, olhou comprometido para o tampo da carteira, e invadiu-se de uma pequena sensação de que um dia olharia para trás e sentiria saudade destes dias em que a rotina se confundia com a descoberta.

No recreio havia que resistir à tentação de pensar em gastar o dinheiro no almoço e guardá-lo para um propósito bem maior, que podia ser a ultima caderneta de cromos, daqueles que já nem sequer precisavam de cola, e que por isso eram muito falados no pátio da escola. Mas uma qualquer voz, que não pôde nunca encontrar fora de si próprio, impedia-o sempre de criar a sua própria equipa e ganhar os campeonatos com que sonhava todas as noites.

O dia correu com aquele ritmo que marcava no relógio o tempo que chegava para estudar, brincar e dormir e ainda ficar com tempo para gerir, como se tivéssemos uma conta em que não soubéssemos o que fazer com tanto juro que nos era ofertado. E na hora da saída, aquela alegria de aguardar pela hora do comboio, e no caminho feito para voltar a casa, o dinheiro que sobrara era para comprar o jornal desportivo e discutir com a autoridade que se encontra do alto nos nossos dez anos, com substância, as tácticas utilizadas pelos treinadores dos clubes grandes.

Quando à segunda paragem viu o nome do seu apeadeiro, desenhado naquela placa branca, suja pelo tempo que passara, correu porta fora para conseguir passar à frente do comboio antes que este partisse. Esperaria anos até que reprovasse esta e outras tonteiras, que lhe davam um sabor que jamais voltou a poder encontrar nas mesmas situações, apenas porque depois medimos cuidadosamente cada passo que pretendemos dar.

A hora de jantar anunciou-se, e já ele tinha gasto mais um joelho na brita que coloria as suas quedas de pequena estrela do campeonato da rua e distraiam ligeiramente a preocupação que tinha, tinha sempre, em saber se a Rosinha o tinha visto marcar aquele golo. E como os jogos eram muito a sério, e como estivera ciente da vitória da sua equipa, e ainda não tinha conseguido o que pretendia, ainda antes de responder à chamada da avó, e embora sentisse a maior vergonha do mundo, não negou um beijo de boca à Cláudia pernas de alicate, por paga de aposta perdida. E como que prenhe de remorsos, soube ali que tinha de jurar à Rosinha que jamais tocara naqueles lábios proibidos

E a Rosinha, com os seus quase nove anos, pensou que os onze anos já feitos da rival representavam uma diferença muito, muito grande, e que o rapaz nunca poderia casar com alguém que fosse assim tão mais velho e o seu coraçãozito sossegou, permanentemente, ou pelo menos, até ao recreio do dia seguinte na escola. Ao jantar, porque o dia foi longo, pareceu-lhe que as pernas tinham ouvidos plantados nos pés, pois correram ligeiras ao terceiro aviso mais sério, porque ele também já adivinhava que depois havia aquele bolo, saboroso, que a avó fazia tão bem.

De peça de fruta na mão, com a avó ainda a dizer qualquer coisa, achou que era altura para ir comparar a colecção de berlindes com o filho do vizinho da frente. E porque não se sentiu dono do seu tempo, soube esperar para sentir naquele instante, embora não o pudesse explicar convenientemente, que tudo aquilo que não conseguira fazer hoje, haveria de realizar senão amanhã, no outro dia depois. Porque há nos seus dias a magia que escolhemos na infância e depois escondemos, como que envergonhados, quando estamos demasiados ocupados e entretidos a parecer que somos todos gente grande.

A PRIMEIRA VEZ

“Da vontade de experimentar coisas novas e da necessidade de o fazer”

Quando finalmente feriu o quente das suas mãos com frio do metal, deu-se ao pequeno luxo de poder sentir um calafrio percorrer-lhe todo o seu corpo, como uma vaga que adivinha um momento de receio por controlar. Largado o pedaço de ferro, foi sentar-se no chão, como se por momentos, fosse aquele o lugar mais confortável que pudesse ousar encontrar para si.

Sabia exactamente o tempo de que dispunha. Sabia ainda de cor a tabuada e podia fazer de cabeça as contas que realmente quisesse. Sorriu ao mesmo tempo que acendeu um cigarro, cravado ao maço que comprara horas antes na estação de serviço. O isqueiro mostrava-se agora quase que um desafio, doíam-lhe a porra dos dedos da mão esquerda, e a sensibilidade de que necessitava não era aquela que estava ao seu alcance de facto. E soltou uma gargalhada com a ironia do momento.

Duas horas antes, pensou com a chegada dos primeiros sinais de fumo expelidos pelo seu aparelho respiratório, duas horas antes estava longe de tudo aquilo e no entanto, sentia agora, toda a sua vida fora um breve caminho paralelo à escolha que conseguira fazer em dois segundos.

Lembrou-se, de repente, que alguém lhe dissera que aquela, a sua, seria recordada como sendo a “Geração Rasca”. Fez um esforço para adivinhar o nome da mente brilhante do politico que os impostos dos seus pais haviam pago, para, entre outras coisas, proferir magníficos pensamentos como aquele, mas não foi capaz.

Fez uma careta em que o seu nariz torceu ligeiramente para a direita, como quem tenta obter acesso a uma zona privilegiada da memória, ou então simplesmente como quem enfrenta uma necessidade fisiológica mais batalhadora. O caso é que naquele ano estava bem longe de compreender o verdadeiro alcance daquela conjugação e sinceramente ignorava por completo o seu real significado.

O liceu dera-lhe os sonhos que descobrira todas as manhãs a partir desses primeiros dias de juventude; dera-lhe as raparigas que, gostava de pensar, engatara (e não o contrário) e os amigos que continuavam a sê-lo apenas na vaga de pensamentos que enfrentava de quando em quando, quando se predispunha a uma sessão de melancolia a roçar o ridículo. Havia ainda que lembrar as bebidas, os cigarros, a leve experiência do seu ser com as também leves exultantes drogas que conhecera. Ah sim ! E aprendizagens, muitas aprendizagens e conhecimentos.

No liceu, contava mais tarde em noites de bebedeira, perdera a virgindade com uma beldade que ninguém parecia conseguir lembrar, não tanto pela quantidade de álcool ingerida, mas provavelmente pelo simples facto de ser mentira, não uma verdade toldada pelo mesmo álcool, mas sim um acontecimento pintado pela sua mente. Sinceramente, também não interessava assim tanto.

Agora, esse tempo de liceu, parecia tão distante como o pedaço de ferro caído a dois passos do seu pé direito, deixando-lhe uma tentadora ideia de poder escolher. Escolhera ganhar a vida a fazer qualquer coisa que não carecia dos conhecimentos que deveria ter adquirido com mais enlevo e paixão, quando se sentava nos bancos da escola.

Que raio de porra, nunca tivera um professor que se dignasse mostrar-lhe porque era importante perder aquele tempo precioso, que cheira a juventude por todos os poros, queimando pestanas e ouvindo raspanetes. Mentia tão mal, tivera um, dois talvez três professores, que recordava rapidamente se estivesse predisposto para isso. Ah e claro, o pai! Dava-lhe vontade de testar até que ponto resistia o progenitor aos seus actos que classificava agora de rebeldia, pois na altura pareciam-lhe uma verdade que só não via quem perdera tempo a envelhecer.

A célebre PGA de 92 ensinou-lhe várias coisas. Entre as mais importantes, disse-lhe claramente o quanto valiam doze anos de escola, sem repetições pelo meio. A universidade passou a ser um lugar distante para onde partiam a maior parte dos seus amigos e amigas. A humilhação foi breve. Sentiu-se o maior da primeira vez que num fim-de-semana festivo pagou uma rodada de cerveja barata com o produto do seu primeiro ordenado.

Pastilhas elásticas, batatas fritas, sumos e cadernetas de cromos, do ramo dos seguros à propaganda médica, vendera papeis e comida. Vendera ideias, com a técnica que se pode apurar com o avanço da experiência que nasce da necessidade crescente que temos de ganhar sustento, seja lá o que for que a palavra signifique, para além do sentido cada vez mais redutor que os dias difíceis camuflados de palavras estranhas, como inflação ou não sei o quê haveriam de trazer.

Boa vida. A timidez do liceu foi-se, quase como por magia, no dia em que perdeu o primeiro emprego por falta de vocação para uma área em que a vocação, ela própria, lhe parecera a ultima qualidade exigida. Dissera-lhe um homem gordo de bigode, por acaso o seu patrão, que o mais importante, mais ainda que boa apresentação, que ele tinha, educação, que ele tinha e força de vontade, que por necessidade também tinha era vender, e de facto ele não vendia, pelo menos não tanto como devia.

Recostou a cabeça na parede atrás de si e fechou os olhos, tantas recordações, pensou para si. No mesmo momento em que o cigarro chegava ao fim, um ameaço de tosse, talvez catarro a puxar mais uma catadupa de pequenas histórias guardadas no mais íntimo do seu íntimo. Ironicamente apenas lhe surgiam imagens dos momentos em que tratara o sucesso por tu, porque sim, isso também acontecera, e num segundo de misto de alegria e tristeza deixava-se arrastar para uma angústia ainda maior.

Quando pequeno, adorava o som da moeda que caia na caixa metálica, apêndice daquele brinquedo que simulava uma nave espacial. O movimento por dois minutos e a panóplia de sons que os pequenos botões no painel proporcionavam, davam azo à sua alegria de criança. O som da vaca, da galinha, do laser e a sirene…

Os sons confundem-se. Uma sirene rasga o silêncio que há tanto tempo já colocara no seu coração, e como que sacudido pelo movimento inerente ao astronauta que fora em criança, faz dos olhos a ponte para os transeuntes, que se aglomeraram entretanto em frente da montra daquela loja, que é desde há vinte minutos o cenário da sua tragédia particular.

Ainda que tão longe daquela ideia que lhe ficara da juventude, o mesmo termo, o “rasca” foi uma palavra das que julgou ter ouvido de um dos seus espectadores de primeira fila, daqueles que alimentam de desgraças alheias e afins. Sorriu, “á rasca” fora aquilo que ele sentira enquanto se dava ao encontro de uma das faces mais estranhas do sucesso, como se apenas com pedras e bastões se pudesse fazer ouvir. Esta noite, ainda que a caminho da esquadra da cidade, aqueles lábios saberiam de novo o que era sorrir. Ah é verdade, e esta noite, pelo menos até que a liberdade voltasse, não voltaria a saber o que era sentir fome.

PRIMEIRA SESSÃO

“Um segundo para além de ‘E tudo o vento levou’”

Sempre que voltava ao cinema da cidade, sentia a mesma sensação de descoberta que vislumbrara quando, pelas mãos dos pais, visitara pela primeira vez, aquela que seria a sala onde os sonhos parecem poder ousar aparecer.

Adorava imaginar a configuração do primeiro balcão e todos os personagens que sabia possuírem o poder de vencer a escuridão, durante cento e tal minutos. Tinha sido assim que conhecera o rapaz que se recusava em crescer, ou o feiticeiro da terra que tinha o nome de duas letras, que faziam lembrar a hora de dormir, ou ainda a menina das meias altas, que polvilhava de aventuras os sonhos que teria quando a noite chegasse e o levasse para casa para dormir.

Gostava de imaginar que as personagens dos filmes que ia vendo e conhecendo, viviam para além do final que se podia aplaudir em honra do celulóide de cada matine, e ficava às vezes nos dias que se seguiam, a perder os seus olhos no horizonte, a procurar um dia para além da ultima cena que vira acontecer.

Foi assim um dia com Rick, algures em Casablanca, ou com Scarlet, olhando para além do tempo em que Reth lhe disse que estava nas tintas, mas no fundo, no seu pensamento, ele voltaria para trás, mas o filme fora tão longo que não era possível mostrar só mais esse bocadinho.

Descobriu com as primeiras borbulhas como o rapaz se diferenciaria do menino que fora, e aprendeu a amar o corpo de Garbo ou o loiro de Bardot. Encontrou-se no alvoroço da juventude, guardando a imagem de cada momento, para a comparação que necessitava para entender cada pedaço da sua realidade.
Aprendeu a amar, tal como aprendeu a deixar-se cativar pela ideia de que os amantes podiam ir em frente, em nome daquilo que sentiam e viver, também ele, as mesmas histórias, carregadas de sentido. Ficava sentado e, ainda depois de todos os créditos, fechava os olhos e sabia naquele momento que aquela história que acabara de presenciar jamais poderia acabar ali. Entregou cada centímetro do seu sentir ao estremecer que percepcionava, quando se entregava sem hesitação ao aglomerado de sensações que o invadiam, e em cada mulher que amou nos anos que se seguiram, havia um toque que o levava de volta às matines, naquela sala, naquelas tardes, quando o mundo era todo ali.

Descobriu por si próprio que as partidas não guardam o mesmo significado, se o ponto de referência que as possibilita se deslocar no sentido contrário da grande tela, e soube enumerar as feridas e a forma diferente como saram, onde o tempo só parece acariciar o relógio num sentido. No futuro que se foi tornando o seu presente, encontrou-se vezes demais preso ao momento em que Bergman pedia para que Sam tocasse aquela musica uma ultima vez, e ficava ali, como se as lágrimas pudessem ser tocadas no piano e cantadas palavra por palavra até que a dor se fartasse daquela cena deprimente e fosse embora. Vezes demais haveria de se encontrar a tentar compreender uma forma quase ridícula de fechar o tempo naquele segundo onde sabia estar seguro, e inventar uma desculpa quase convincente para que não precisasse de voltar a chorar.

Haveria de crescer, pensar na segurança daquelas tardes que vivera, e escrever as suas páginas de história pessoal. E acreditando na mentira, que tomara a sua mão, juntaria a coragem para dizer o que guardara daqueles filmes e, se possível, contar da forma que melhor soubesse e se tivesse tempo ainda inventar uma existência com sabor de plágio.
Talvez por isso a cada separação as palavras “isto pode ser o principio” retocavam cada ponto amargo que desenhava nas suas próprias palavras, escondidas algures em si e, embora o não soubesse realmente, entregava-se a uma espera, quase um ritual feito falsa sensação de maturidade.

E descobriria que de novo a sua história, não esperava por qualquer elenco especial, com este ou aquele personagem, que pintara no futuro com sonhos de passado. Ao voltar ao cinema, encontrá-lo ainda na sua cidade, já velho e antiquado, como se a estupidez de alguns conseguisse dissociar uma palavra da outra, sabia que iria encontrar a mesma caixa de sonhos, empoeirados também eles, pelas tardes de tempo, de gargalhadas e lágrimas, que se haviam oferecido àquelas paredes, que agora mais não significavam do que uma construção velha e antiquada.

Naquela tarde de regresso, nem armas, nem amor, nem erotismo, nem romance, nem as personagens heróicas que sabem de cor o seu caminho. Apenas os sonhos, tantos sonhos, tantas tardes e ele é ainda o rapaz que se recusa a crescer.